Diário de uma mãe em surto: o começo do tratamento psiquiátrico

Hoje recomecei a fazer o que minha analista mandou. Escrever num diário tudo que acontece comigo para elaborar meus pensamentos e organizar minha vida, pois me sinto muito cansada e deprimida. Estou tentando ter paciência com as pessoas da minha família, pois ultimamente tenho sonhado que estou matando-os com as minhas próprias mãos. Acordei, arrumei a casa meio por cima, juntei todas as bagunças do chão e fiz café para a família. Coloquei a roupa suja na máquina, liguei o botão enquanto chamava as crianças para se apressarem para a escola. Fui até o quarto deles para insistir em acordá-los. A chaleira começou a apitar. Voltei para a cozinha, no meio do caminho juntei os tênis do meu filho que estavam jogados no corredor. Troquei a água do feijão que estava de molho. Liguei a torradeira. Voltei no quarto das crianças para ameaçá-los de apanhar caso não levantassem.

Meu marido acordou resmungando reclamando que eu não dou educação para nossos filhos, que no tempo dele as crianças tinham a responsabilidade de se levantarem sozinhos sem que os pais mandassem. Aquilo me irritou profundamente. Adentrei o quarto deles, abri a persiana com raiva e arranquei as cobertas de cima daquelas criaturas que saíram de dentro de mim não sei como. Mandei levantar imediatamente e ir tomar café quase num surto psicótico. Arrumei os cabelos com as mãos, respirei fundo e lembrei-me da torradeira ligada.

Quando finalmente todos estavam na cozinha, terminaram o café com pressa e saíram em disparada como uma tropa de cavalos cujas bundas foram picadas por abelhas. Meu marido saiu reclamando que tem que resolver tudo e está sentindo-se sobrecarregado e o resto eu nem ouvi mais. Afinal ele reclama todo o dia e eu não faço mais questão de escutar. Olhei a cozinha com tristeza, parecia que a tropa de cavalos tinha deixado a cozinha como os cavalos deixam as ruas na Semana Farroupilha. Comecei a limpar tudo com certo desânimo, mas encarei com firmeza a minha tarefa de dona de casa. Após aproximadamente uma hora a cozinha estava um brinco, tudo brilhava. Poderia me enxergar no brilho da chaleira. Aliás, quando me olhei levei um susto! Estava um trapo! Fui dar um jeito na cara e tirar aquela camisola horrenda que ganhei quando tinha dezessete anos e está se desfiando toda, mas tem uma malha tão gostosa que não tenho coragem de me desfazer dela. Ajeitei-me e saí para a feira para comprar tudo fresquinho e saudável para a semana.

Olhava para o relógio para não perder a hora de começar o almoço. Cheguei em casa e me bateu uma tristeza de ter que sujar a cozinha tão limpinha novamente. Mas encarei sem medo e com muita determinação. O difícil não é fazer a comida em si, mas descobrir o que fazer para o almoço sem que ninguém reclame de nada e com a grana curta. Fui estender as roupas e colocar as cortinas para lavar. Arredei os móveis e retirei os tapetes. Arrumei os quartos, desinfetei os banheiros. Varri a casa toda e passei aspirador em alguns lugares. Retirei o lixo dos banheiros e passei álcool nos espelhos. Passei lustra-móveis por tudo. O cheirinho estava bom. Peguei um tapete horrível de pesado e descarreguei toda a minha indignação por fazer aquilo todos os dias no bendito tapete. Dei uma surra de vassoura nele lá no pátio até parar de sair pó. Coloquei de volta no lugar e passei limpa carpete para ficar mais limpo e cheiroso. Reorganizei os móveis nos seus devidos lugares e corri para começar o almoço. Enfim, fiz uma comidinha variada e bem gostosa, arrumei a mesa bem bonita e meus filhos chegaram da escola. Atiraram a mochila em cima do sofá e meu radar anti-bagunça foi acionado. Mandei que guardassem a mochila no quarto, mas eles não me escutaram. Então eu mesma peguei com ódio aquela mochila maldita e guardei com cuidado no cabide do quarto. Mandei que lavassem as mãos enquanto meu filho mais velho já estava com uma mandioca frita na boca. O mais novo já tinha atirado os tênis no meio da sala de novo e pior, dessa vez com as meias junto de brinde, depois de uma partida de futebol da aula de educação física. Ligou a TV e sentou-se com um prato de comida na mão. Eu o mandei voltar para a mesa e esperar o pai chegar para almoçarmos juntos e ele me chamou de mulher chata. Nisso meu marido chega do trabalho, lava as mãos reclamando e senta-se à mesa. Reclama que não gosta de ervilha e que eu já deveria saber, como se ninguém mais gostasse de ervilha por causa disso. Pergunto então ansiosa para saber como foi o dia deles e eles nem respondem.

Meus filhos começam a brigar entre si e meu marido perde a paciência com eles, a briga está formada. Em certo momento saltou uma ervilha de dentro da boca do meu filho num momento de fúria. Mandei que todos se calassem, pois a hora do almoço é sagrada e um dos meus filhos disse que sagrado é o meu fiofó, só que não com essas palavras. Foi bem pior. Então meu marido levantou da mesa e disse que não dava para comer em nossa casa e foi para o quarto deitar-se um pouco para dar uma dormidinha antes de voltar ao trabalho. Meus filhos levantaram da mesa e enquanto um foi ver TV o outro foi para o computador. Fiquei ali comendo sozinha e resolvi retirar a mesa que tinha arrumado com tanto carinho, analisando que parecia que glutões da idade média tinham passado por ali. Tinha comida fora do prato e suco virado na toalha. Nossa, eles nem perceberam que fiz um suquinho natural e deu um trabalhão para espremer aquele saco de laranjas. Tudo bem! Pelo menos eles estão bem alimentados e com alguma vitamina C no corpo. Retirei a mesa e me deu uma tristeza. Olhei para a cozinha e tinha que começar a limpar tudo novamente. Comecei a limpar com certo desânimo, mas encarei com firmeza a minha tarefa de dona de casa. Após aproximadamente uma hora a cozinha estava um brinco, tudo brilhava inclusive a palavra indignação bem no meio da minha testa.

 

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
Outros artigos
Coluna Vida&Carreira
Vida & Carreira
Vida & Carreira
Leia todos os artigos
Diário de uma mãe em surto: e o surto chega ao fim
Diário de uma mãe em surto: vigésima semana de tratamento
Diário de uma mãe em surto: quarta semana de tratamento psiquiátrico
Diário de uma mãe em surto: a descoberta das redes sociais
Diário de uma mãe em surto: o começo de uma revolução
Diário de uma mãe em surto: e a saga continua...
Diário de uma mãe em surto: o fundo do poço
Diário de uma mãe em surto: Noite de Natal
Diário de uma mãe em surto: Culpa Zero
Diário de uma mãe em surto: Angra dos Reis
Diário de uma mãe em surto: no bar do Otacílio
Diário de uma mãe em surto: cantada de pedreiro
Diário de uma mãe em surto: rapazinho robusto
Diário de uma mãe em surto: festa de aniversário
Diário de uma mãe em surto: reunião da escola
Diário de uma mãe em surto: mãe culpada
Diário de uma mãe em surto: Domingo de Páscoa
Diário de uma mãe em surto: Traumas de Infância
Diário de uma mãe em surto: primeiro dia na escolinha
Diário de uma mãe em surto: empregada canalha
Diário de uma mãe em surto: Último dia de licença maternidade
Diário de uma mãe em surto: Um mês após o nascimento
Diário de uma mãe em surto: existe vida pós-cesárea
Diário de uma mãe em surto: a volta pra casa
Diário de uma mãe em surto: o grande dia
Viajando de ônibus
Gente chata cansa
O que me falta
O lado B da gravidez
Confissões
Quando a política contamina o futebol
Dividir a vida
O que te move?
Eu, vocês e minha escrita
 
© CaçapavaOnline.net 2014 - Todos os direitos reservados.