Diário de uma mãe em surto: o começo de uma revolução

Fazer análise é fantástico. Continuo me sentindo cansada, mas diferente. Acordei hoje com vontade de radicalizar. Decidi não me manifestar durante o dia todo. Tomei café tranquilamente e não acordei ninguém. Me arrumei, até maquiagem passei no rosto, depois saí para fazer a feira para comprar frutas. Simplesmente deixei um bilhete na geladeira dizendo: “Meus amores, mamãe foi na feira. Não se esqueçam de tomar café!”.

Voltei e notei que um furacão havia passado dentro de casa. Tinha uma escova de dentes em cima da mesa do hall e pelo visto ninguém tomou café. Liguei o som e detonei uma música enquanto colocava as roupas para lavar. Peguei uma vianda aposentada no fundo do armário e fui num restaurante a quilo para escolher o almoço escutando um mp3. Quando voltei simplesmente coloquei em pratos diferentes. Atirei um jogo americano em cima da mesa e enchi uma jarra de água para não fazer anarquia inventando sucos. Fui assistir televisão e dar umas gargalhadas sozinha.

Eles chegaram, mandei sentar à mesa e se me respondessem alguma coisa eu grudava um rolo de massa na cabeça deles. Mandei meu filho juntar os tênis e as meias da sala e enfiar na bunda. Meu marido chegou e começou a reclamar, eu o escutei e comecei a cantar cara caramba caracaraô enquanto tirava os pratos da mesa. Atirei na pia para lavar depois e fui dormir antes que ele chegasse ao quarto e dormisse primeiro para roncar nos meus ouvidos. Ele me olhava espantado enquanto eu roncava. Meus filhos estavam no computador quando acordei e meu marido já havia ido trabalhar. Pedi para meus filhos fazerem uma página pra mim nas redes sociais porque queria saber como era aquilo que eles tanto mexiam. Enquanto isso arrumou a cama deles, tirei o lixo e organizei a casa, incluindo a louça do almoço que eu já havia esquecido.

No meio da tarde fiz uma vitamina de banana, entreguei lá no computador mesmo para cada um e avisei que ia sair. Voltei no consultório da analista que me encaminhou para uma psiquiatra renomada. Comecei a tomar fluoxetina, mas não senti diferença alguma. Voltei para casa esperançosa, tomei um guaraná cerebral e fui tomar um banho. Esqueci do chimarrão do marido. Mas também não tava nem aí.

Detonei uma música na cozinha e fiz um jantarzinho esperto, mas deixei no fogão mesmo e avisei a galera que quem quisesse comer que comparecesse à cozinha, se servisse e deixasse tudo dentro da pia que no outro dia iria lavar. Fui assistir TV no quarto enquanto lia revistas de fofoca. Percebo que a casa está mais silenciosa, os três parecem estar desconfiados e com os olhos meio arregalados pra cima de mim. Dane-se! Virei para o lado e dormi. 

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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