Diário de uma mãe em surto: quarta semana de tratamento psiquiátrico

A fluoxetina é a coisa mais legal de baita jóia que já inventaram. Estou feliz por estar viva, por ser saudável e poder ouvir os pássaros a cantar pela manhã. Se bem que ando me acordando meio tarde por causa da internet na madruga. Viciei naquela porcaria. Só dá tempo de buscar o almoço e arrumar as camas meio por cima. Os lençóis eu só troco uma vez por semana agora que é para poupar sabão em pó e luz. Estou aproveitando o tempo sem os meninos em casa para ficar na internet por que as brigas pelo computador estavam demais. Quase bati no meu filho mais velho por que tinha que responder uns posts muito importantes e ele não entendia o meu lado. Além disso, sou moderadora de 897 grupos nessa rede social e não posso deixar de responder para as pessoas que aguardam por uma resposta.

Percebo que minha família anda quieta. Nem parecem aquelas araras assassinas na hora do almoço. Meu marido anda chegando em casa mais cedo e parou de me chamar de anta. Chegou ao nível de me chamar pelo nome, vejam só! Notei no espelho que andei dando uma boa emagrecida e isso levantou ainda mais o meu astral. Amanhã vou dizer que a descarga estragou e pedir mais dinheiro para o cavalo do Arlindo Orlando para comprar roupas novas.

Estive pensando onde eu estava esse tempo todo que não conseguia me enxergar dessa forma? No espelho a antiga Ana não é mais quem era e não só no aspecto envelhecido, mas na alma. Sim, consigo olhar nos meus olhos e enxergar minha alma. Uma mistura de tristeza com alegria. Sensação de tempo perdido com vontade de buscar novos horizontes. Nossa! Essa fluoxetina está começando a virar minha melhor amiga.

Sim eu amo a fluoxetina. Eu idolatro a fluoxetina. Eu venero o farmacêutico que descobriu a fórmula da fluoxetina e poderia dar um beijo de língua de quarenta e cinco minutos nele. Eu amo a vida e o Planeta Terra. Boa noite sol! Boa noite lua! Boa noite flores! Boa noite natureza, sua linda! Eu amo meus filhos. Eu amo minha casa. Eu amo minha vianda. Minha analista, meu cabeleireiro. Mas descobri que não amo mais meu marido e estou pensando melhor nesse assunto. Acho que ele não me enxerga mais na frente e eu não sinto a menor falta que enxergue. Aliás, tenho sonhado que estou em altos momentos íntimos com todos os atores dos filmes que já assisti na vida. Uma loucura!

Estou com a nítida sensação que gritei de verdade na orgia que fiz no meu sonho dessa noite. Acordei relaxada como há muito tempo não me sentia e imensamente feliz. Meu marido agora voltou a reclamar de tudo e eu continuo cantando cara caramba caracaraô nessa hora. Minha rotina em redes sociais agora não está tão interessante, embora todos os dias fique boa parte do meu dia no computador. Resolvi pedir para o dono do restaurante que fornece viandas, que entregasse todos os dias lá em casa para aproveitar melhor o tempo que eu levava para buscar o almoço e assim poder ficar no computador antes que meus filhotinhos chulepentos cheguem da escola.

A propósito, nosso jantar está sendo torradas. E cada um faz o seu para ficar mais prático. Bem melhor!

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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