Diário de uma mãe em surto: vigésima semana de tratamento

Resolvi fazer um currículo e enviei para várias empresas. Fui ao cabeleireiro e pedi uma transformação geral. Deixei um bilhete para os “homens da casa” que tinha uma lasanha no forno e que eles não me esperassem para o almoço. Estou tendo fantasias sexuais com o aspirador de pó e estou preocupada, por isso marquei analista para rever alguns pontos. Voltei pra casa conformada, pois meu marido de certa forma serve para pagar as contas da casa e sem ele poderia ser bem pior.

Teve um dia que meus filhos estranharam de me ver de pijama o dia todo em casa. Sei lá, decidi que não tava com vontade de fazer nada, mas a casa pelo menos estava super arrumada. No jantar percebia que eles brigavam ao fundo, mas eu só conseguia cantar, cantar e cantar. A vida é muito linda para ser desperdiçada.

No dia seguinte cheguei à psiquiatra e quando percebi falei assim:

- E aí psiquí? Aqui estou eu para mais uma sessão no mesmo bat-canal e no mesmo bat-horário. Tudo bem com você? Bóra trabalhar meu processo de interiorização?

Ela olhou pra mim espantada como se estivesse vendo algo bizarro como uma girafa escovando os dentes por exemplo. Seguiu em silêncio enquanto eu falava:

-Nunca mais vou permitir que a senhora me tire algum remedinho esperto desses que eu estou tomando. Show de bola! Mas sabe, estou achando tudo muito morno, sem graça. Acho que meu relacionamento está esfriando de vez. Pensei em arranjar um amante, mas acho que vai me dar muito trabalho, afinal preciso de tempo para arrumar a casa toda, cuidar de mim e ainda ficar no computador enquanto meus filhos não chegam. Se bem que agora eu só arrumo a casa na hora que eles estão no computador, senão nem arrumo mais. Ah! Eles vão dormir mesmo e bagunçar a cama toda de novo! Pra que vou ficar arrumando toda hora? Recebi um telefonema de uma empresa querendo ver o meu currículo e fui a uma entrevista hoje. Fiquei toda animada, mas morrendo de medo de ser chamada, eu não sei fazer praticamente nada, não saberia nem por onde começar. Mesmo assim, sinto que preciso ser independente para me livrar daquele marido múmia que eu tenho em casa e parar de mentir pra ele que a máquina de lavar estragou só para conseguir uma graninha extra para fazer a unha.

Saí da sessão sem saber direito os resultados porque a psiquiatra ficou em silêncio fazendo anotações e apenas me avisou que a sessão havia terminado. Voltei pra casa sorrindo com a sensação de leveza por ter desabafado com uma amiga todas as questões que me ocorriam. Só sei que por enquanto deixarei tudo como está, porque está funcionando muito a minha tática de parar tudo que estou fazendo e ir para o banho cantando cara caramba caracaraô enquanto os meninos ficam discutindo na sala com o pai. Não sei vocês, mas eu adoro deixar gente chata no vácuo.

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
Outros artigos
Coluna Vida&Carreira
Vida & Carreira
Vida & Carreira
Leia todos os artigos
Diário de uma mãe em surto: e o surto chega ao fim
Diário de uma mãe em surto: quarta semana de tratamento psiquiátrico
Diário de uma mãe em surto: a descoberta das redes sociais
Diário de uma mãe em surto: o começo de uma revolução
Diário de uma mãe em surto: e a saga continua...
Diário de uma mãe em surto: o começo do tratamento psiquiátrico
Diário de uma mãe em surto: o fundo do poço
Diário de uma mãe em surto: Noite de Natal
Diário de uma mãe em surto: Culpa Zero
Diário de uma mãe em surto: Angra dos Reis
Diário de uma mãe em surto: no bar do Otacílio
Diário de uma mãe em surto: cantada de pedreiro
Diário de uma mãe em surto: rapazinho robusto
Diário de uma mãe em surto: festa de aniversário
Diário de uma mãe em surto: reunião da escola
Diário de uma mãe em surto: mãe culpada
Diário de uma mãe em surto: Domingo de Páscoa
Diário de uma mãe em surto: Traumas de Infância
Diário de uma mãe em surto: primeiro dia na escolinha
Diário de uma mãe em surto: empregada canalha
Diário de uma mãe em surto: Último dia de licença maternidade
Diário de uma mãe em surto: Um mês após o nascimento
Diário de uma mãe em surto: existe vida pós-cesárea
Diário de uma mãe em surto: a volta pra casa
Diário de uma mãe em surto: o grande dia
Viajando de ônibus
Gente chata cansa
O que me falta
O lado B da gravidez
Confissões
Quando a política contamina o futebol
Dividir a vida
O que te move?
Eu, vocês e minha escrita
 
© CaçapavaOnline.net 2014 - Todos os direitos reservados.