Diário de uma mãe em surto: e o surto chega ao fim

Querida, amada e iluminada psiquí, acho que nem preciso mais vir aqui lhe entregar meu relatório de diários. Estou muito tranquila e feliz. Fui chamada para trabalhar numa empresa que é maravilhosa. Um ambiente agradabilíssimo, um salário razoavelmente bom, colegas simpáticos que estão me ajudando bastante na fase de adaptação. Sinto-me útil, ágil, cheia de energia, vitalidade e até contratei uma faxineira. Bolei um cartaz com tarefas para manter a casa em ordem, porque agora não existe mais a escrava Isaura aqui para limpar todos os minutos.

Chego à tardinha, faço um gostoso chimarrão e sento com meus filhos para conversarmos abobrinhas e dar uma revisada nas tarefas da escola. A múmia do meu marido não está mais brigando e até me elogiou hoje pela manhã, disse que estava um pouco mais magra. Eu quase gozei com esse elogio, afinal, não sei o que é isso há anos. Fiquei toda animada com as mudanças comportamentais de Arlindo Orlando que esses dias resolvi testá-lo. A múmia se desvencilhou dos pedaços de múmia e virou um homem viril. Me fez gemer sem sentir dor e quase disse que eu o amava num momento de loucura. Acordamos como dois estranhos, um olhando meio desconfiado para o outro, mas fingimos que não havia acontecido nada demais. Tomamos café e ele me ofereceu uma carona até o trabalho. Senti até certo medo, mas aceitei. Na descida do carro ele me puxou e deu um beijo em meu rosto. Eu não entendi nada, mas desci sorrindo, meio desconfiada. Trabalhei feliz e minha semana foi toda assim: estranha.

Minha família está relativamente normal. Arrisco a dizer que parecemos um comercial de margarina em certos momentos. Arlindo Orlando foi promovido de múmia para Rei Leão e estou até achando ele mais acessível e menos barrigudo. Já não sinto mais vontade de me separar e meus filhos estão indo muito bem na escola. O mais velho até recebeu um elogio da professora. Resolvemos viajar todos juntos e foi muito divertido. Entrei numa feirinha que sempre tem em cidades turísticas e comprei lençóis, lingeries e frufruzinhos novos para dentro de casa.

A casa ganhou certo charme. Comprei abajures e à noite eu acendo todos pela casa para criar um clima agradável. Como sou eu que pago a conta, Arlindo Orlando nem reclama quando deixo as luzes acesas. Desisti da ideia de comprar um vibrador. Mas sugeri essa alternativa para uma vizinha chata pra caramba que tenho que só o que sabe fazer na vida é reclamar de tudo. Sei bem o que é se contentar em sonhar com o aspirador de pó. Dá uma raiva da vida que eu nem gosto de lembrar. Tenho notado que ela anda mais sorridente pela rua. Comprei um computador só para mim, mas só utilizo nos finais de semana quando estou sozinha porque os meninos foram jogar com os amigos ou quando meu Rei Leão foi jogar sinuca no Bar do Otacílio. Estamos todos muito bem. Cada um na sua, fazendo aquilo que gosta e quando todos estão em casa tentamos aproveitar ao máximo bons momentos juntos.

Só tem uma pequena coisinha que ainda está me incomodando e não consigo resolver. Uma pelanca de graxa que me acompanha na pança e não deixa aparecer o detalhe da lingerie vermelha que comprei na viagem. Acho que vou ter que rever minha análise. Mesmo assim, obrigada por me acompanhar nesse tratamento. Me aguentar esse tempo todo foi sinal de muita coragem, paciência e determinação. Se você quiser uma fluoxetina para se recuperar fala comigo tá? TE AMO minha psiquiatra querida.

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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