Viajando de ônibus

- Mãããããe...

-Hummmm...

-Falta muito para o ônibus sair?

-Não meu filho, fica quietinho que o motorista já vai ligar o motor.

-Posso abrir meu pacote de salgadinho de queijo parmesão?

-Mas meu filho, recém saímos de casa e tu acabastes de tomar um café reforçado e...

-Ah mããããe, que saco!

-Tá guri! Come!

-Oba! shilepxxxxxxxx (o barulho mais próximo que imaginei de um saco de salgadinho abrindo) 

O cheiro começa a impregnar no ambiente do ônibus. Um verdadeiro horror. Maria Lúcia entra no ônibus e sentindo aquele fedor de chulé de jogador de futebol depois do jogo misturado com vômito de criança senta-se em um banco cujo lugar ao lado está vazio.

-Aaaaaaaai... - suspira ela – Essa viagem vai ser longa. Criança comendo salgadinho antes de o ônibus ligar não vai dar boa coisa.

Nisso ela olha pela janela e observa um homem com aspecto de mendigo fumando um cigarro atrás do outro como se o mundo fosse acabar. Ela pensa:

-Tenho pena de quem sentar ao lado daquela criatura ali.

O homem então entra no ônibus com a passagem na mão e começa a olhar banco por banco analisando qual seria o número da sua poltrona. Na medida em que vai se aproximando, Maria Lúcia vai rezando mentalmente para que Deus não faça isso com ela. Só que por um acaso do destino, Deus resolve não colaborar e adivinhem?

- Licença, essa é a minha poltrona. Muito Prazer.

Maria Lúcia repensou se deveria sair dali correndo e comprar uma passagem para o próximo ônibus, mas o motor foi ligado. Tarde demais, pensou ela, afundando-se na poltrona como se estivesse embarcando para o inferno.

O mendigo, quer dizer, o senhor fedendo a cinzeiro, xixi e sovaco sujo estava escutando um radinho com fones de ouvido e ofereceu um dos fones para Maria Lúcia. Ela agradeceu, mas ele insistiu em colocar o fone no ouvido dela porque realmente a música que estava tocando, para ele era a melhor música que Teixeirinha já compôs. Ela escutou por aproximadamente 3 segundos e disse:

-É verdade. Também acho. Mas se o senhor me dá licença eu vou dormir. (virou-se para o lado e fingiu-se de morta. Aliás, naquele momento ela já estava desejando morrer de verdade ao invés de estar ali).

Então chegando ao trevo da cidade, Maria Lúcia abre um dos olhos e conclui que viajar sem sono de olhos fechados faz uma viagem daquelas parecer que está na metade do caminho quando na verdade o ônibus nem se quer saiu do lugar. Decepção total.

-Cóptero! Olha o cóptero mãe!

-Meu filho aquilo é um avião agrícola.

-É cóptero!

-É um avião agrícola meu filho, ele serve para colocar agrotóxicos nas plantações.

-É cóptero! Có-pi-te-ro!

-Tá meu filho é um helicóptero! Pronto!

-Olha o cóptero de novo mãe! Uóóóóóóóóó!

Maria Lúcia morde um dos lábios e repensa o que teria feito para merecer ser castigada. Além do fedor ao lado, ter que escutar um filhotinho de ser humano dos mais chatos que não cala a boca um só minuto falando sem parar, que além de ignorante é teimoso ainda por cima.

Toca um celular. Uma musiquinha cretina das mais fuleiras que existe.

-Alôôôô (aos berros) tô saindo da redoviária! Tá um calorão dentro do ômbus, um horror! (aos berros) To levano os ovo de galinha crioula que te prometi. Mas com esse calor não sei se vão chegar bem aí (aos berros). Fala pra Creidi me esperar com a cachaça! Tô só pelo mé. (aos berros)

Mais a sua frente o menino que já estava no terceiro pastel depois do salgadinho de queijo parmesão olha para sua mãe e diz:

-Mãããããe... Tô enjoado. Quero vomitar.

Definitivamente, viajar de ônibus é um prato cheio para quem escreve. E um verdadeiro inferno pra quem viaja. 

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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