Diário de uma mãe em surto: o grande dia

Finalmente chegou a hora de parir. Uma mistura de sentimentos, sem saber se rio ou se choro. Expectativa, felicidade e nervosismo. Eu ali do tamanho de um elefante, com a boca revirada do avesso e os pés parecendo sonhos de padaria, caminhando como um leão marinho que cruzou com uma pata choca, deslocando-me lentamente em direção à sala de parto para o tal do maldito preparo, já que optei por cesariana.

Olhei para tudo meio desconfiada quando apareceu um enfermeiro e pediu que abrisse as pernas como se fosse rechear um frango. Verificou se estava tudo certo na região do baixo ventre enquanto me concentrava no teto rezando para que tudo terminasse logo. Percebi que a lâmpada fluorescente do hospital estava fraca e irritantemente piscante. Fiquei contando cada piscada numa tentativa de me distrair enquanto o enfermeiro deixava o parque de diversões impecável, pois tanto tempo sem visitação em função do final da gestação porque morria de medo de parir num momento mais íntimo com meu marido, aliado a falta de coordenação motora para alcançar as partes baixas, acabou causando um aspecto de total abandono mesmo.

Quando pensei que tudo havia terminado, o simpático enfermeiro enfiou uma sonda na minha uretra que deu vontade de cantar o hino nacional de trás pra frente. Lá pelas tantas me trocaram de maca e chegou o anestesista. Um semblante amigo, todo sorridente, mas foi só enganação. Minutos depois ele enfiou uma agulha do tamanho de um eucalipto de cem anos na minha coluna. A essa altura percebi que havia misturado o hino do Brasil e do Chile cantando mentalmente pior do que a Vanusa.

Após a anestesia foi só alegria. Um turbilhão de emoções e até esqueci a ardência que estava sentindo por causa da sonda ao ver o rostinho do meu bebê. Ele nasceu, foi aspirado, colocaram-no junto a mim por um tempo enquanto Arlindo Orlando fazia um “selfie” totalmente descoordenado de nós três. Por sorte apareceu apenas a minha orelha esquerda, porque estava mais inchada que cintura de sapo. Logo em seguida o levaram embora para algum lugar secreto no vale dos bebês dentro do hospital, enquanto os médicos costuravam minha barriga em cinquenta e seis camadas. Se não foi isso, foi quase.

Chegando ao quarto, precisei ficar muitas horas na posição horizontal em função da cesariana. E aí a coisa ficou feia, literalmente, porque meu pescoço inchado simplesmente desapareceu. Era tudo uma coisa só entre cabeça e tronco. Alguns diziam que eu estava linda, mas eu sabia que era mentira só para me deixar feliz. 

Nisso meu bebê lindo chegou ao quarto. Quer dizer, lindo não, engraçadinho. Bebezinhos recém-nascidos dificilmente são lindos. É preciso muita imaginação para enxergar um bebê “Johnson” na cria logo que nasce. Mas era tão fofinho, indefeso, meigo... A paixão brotou como se fosse explodir de tanto amor. Enquanto isso enfermeiras me auxiliavam a eliminar o colostro para que a criança pudesse sugar. Eu ali totalmente entregue, deixei que toda a galera do hospital e mais algumas pessoas da família me ordenhasse como a vaquinha Jersey de meu avô Alfredo.

Até então nada de dor, mas lá pelas tantas começou a subir um frio assustador como se estivesse pelada no Polo Norte com o ventilador ligado no nível máximo. A anestesia passando. Meu seio começou a inflar como se uma atriz pornô incorporasse em meu corpo. O yeah! Meu sonho de consumo sempre foi ter seios fartos. Porém, seria melhor se não empedrassem. A mamãe versão “Tchitholina” aqui escorria leite por cima e sangue por baixo. E quando falo sangue, é sangue minha amiga! Uma limpeza profunda num corpo que ficou sem menstruar por quarenta semanas. A notícia boa é que ninguém morre por isso. Não sei como, aliás.

As visitas começaram. Todos querendo ver o bebezinho engraçadinho que chegou ao mundo. Eu ali querendo ter um controle remoto do tempo para acelerar alguns dias e poder estar em pé aproveitando o bebê com a mesma felicidade, livre de sondas e pontos de cirurgia. De repente, olhei para o pai da criança e percebi que ele tinha praticamente a mesma participação que eu no nascimento e estava ali gargalhando com as visitas, com o bebê no colo, feliz e magrinho como adoraria estar sem precisar enfrentar absolutamente nada disso. Decidi então naquele minuto que ele seria meu fiel escudeiro, pagaria todas as contas e seria o responsável por todas às idas à farmácia mesmo que fosse às três horas da madrugada. E sem reclamar, para não correr risco de vida. 

 

 

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
Outros artigos
Coluna Vida&Carreira
Vida & Carreira
Vida & Carreira
Leia todos os artigos
Diário de uma mãe em surto: e o surto chega ao fim
Diário de uma mãe em surto: vigésima semana de tratamento
Diário de uma mãe em surto: quarta semana de tratamento psiquiátrico
Diário de uma mãe em surto: a descoberta das redes sociais
Diário de uma mãe em surto: o começo de uma revolução
Diário de uma mãe em surto: e a saga continua...
Diário de uma mãe em surto: o começo do tratamento psiquiátrico
Diário de uma mãe em surto: o fundo do poço
Diário de uma mãe em surto: Noite de Natal
Diário de uma mãe em surto: Culpa Zero
Diário de uma mãe em surto: Angra dos Reis
Diário de uma mãe em surto: no bar do Otacílio
Diário de uma mãe em surto: cantada de pedreiro
Diário de uma mãe em surto: rapazinho robusto
Diário de uma mãe em surto: festa de aniversário
Diário de uma mãe em surto: reunião da escola
Diário de uma mãe em surto: mãe culpada
Diário de uma mãe em surto: Domingo de Páscoa
Diário de uma mãe em surto: Traumas de Infância
Diário de uma mãe em surto: primeiro dia na escolinha
Diário de uma mãe em surto: empregada canalha
Diário de uma mãe em surto: Último dia de licença maternidade
Diário de uma mãe em surto: Um mês após o nascimento
Diário de uma mãe em surto: existe vida pós-cesárea
Diário de uma mãe em surto: a volta pra casa
Viajando de ônibus
Gente chata cansa
O que me falta
O lado B da gravidez
Confissões
Quando a política contamina o futebol
Dividir a vida
O que te move?
Eu, vocês e minha escrita
 
© CaçapavaOnline.net 2014 - Todos os direitos reservados.