Diário de uma mãe em surto: a volta pra casa

Chegada da maternidade. Enfim minha casa, minha cama, meu chuveiro. Consegui caminhar como o Corcunda de Notre Dame depois de um derrame, mas achei o máximo que a velocidade aumentou consideravelmente em relação ao primeiro dia que levantei da cama no hospital e tinha medo até de fazer xixi e a barriga abrir no lugar da cirurgia.

Deitei em minha cama linda com meus lençóis macios e perfumados com meu cheiro e achei o máximo aquele batalhão de pessoas me ajudando com o bebê. Algo me diz que estou servindo como figura decorativa e que sou lembrada somente na hora de amamentar. O bebê é a grande atração da casa. Mas tudo bem. Eu não me importo. Lá pelas tantas chega um parente piadista e descobri que ele deveria me visitar um ano após o nascimento da criança, pois dar risada com a barriga aberta em oito camadas não foi nada engraçado. Cada mexida na barriga até mesmo com uma simples tossida faz o sangue se movimentar para o local e parece que o músculo estica e pressiona os pontos como se eles fossem apertando os nós. Senti vontade de grudar o travesseiro na cara do maldito e o mandar calar a boca, mas não podia ser indelicada com as pessoas que estão gentilmente me visitando e querendo me alegrar.

No dia seguinte, após uma madrugada completamente sem dormir, uma vizinha da minha avó resolveu bater na porta para conversar fiado e conhecer o bebê às duas da tarde, bem na hora que consegui tirar um pequeno cochilo depois de amamentar pela vigésima vez. Quando Arlindo Orlando colocou a chupeta no bebê, ela começou a gritar para não fazer isso alegando que depois será muito difícil tirar o vício da criança. Minha vontade era de jogar todas as caixas de remédio para dor na cara dela e mandar calar a boca de uma vez por todas. Mas não podia ser indelicada com a amiga de infância de minha vozinha querida e, portanto desliguei os ouvidos e tentei me concentrar em imaginar sessões de tortura com a criatura como se estivesse meditando num mundo paralelo fazendo mantras mentais para que ela fosse embora.

Quando estava a ponto de levantar da cama e ir me arrastando até a área de serviço para pegar uma vassoura para virar de ponta cabeça e colocar atrás da porta, a pessoa teve um ataque de espirro e por perceber o quanto estava sendo inconveniente espirrando sem parar num ambiente com um bebê sem imunidade, resolveu ir embora.

Não sei vocês, mas espirro pra mim é como bocejo. Se vejo alguém fazendo isso sinto uma enorme vontade de fazer também. Acabei espirrando junto e logo em seguida comecei a chorar de dor. Foi como se minha barriga e todos os pontos internos tivessem arrebentado num único espirro. Arlindo Orlando ficou aflito porque paralelamente a isso o bebê chorava também. Aos poucos a sensação ruim foi passando e consegui focar naquele bebezinho lindo que só o que sabe fazer, além de cocô, xixi, mamar e chorar, é me fazer a mulher mais completa e feliz desse mundo. Não entendo como em meio a todo esse caos, consigo me sentir transbordando amor e alegria pelos poros. Tem algo estranho nisso. Eu só não descobri o que é. Mas estou tão cansada que não quero mais pensar nisso. Deixa pra lá.

 

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
Outros artigos
Coluna Vida&Carreira
Vida & Carreira
Vida & Carreira
Leia todos os artigos
Diário de uma mãe em surto: e o surto chega ao fim
Diário de uma mãe em surto: vigésima semana de tratamento
Diário de uma mãe em surto: quarta semana de tratamento psiquiátrico
Diário de uma mãe em surto: a descoberta das redes sociais
Diário de uma mãe em surto: o começo de uma revolução
Diário de uma mãe em surto: e a saga continua...
Diário de uma mãe em surto: o começo do tratamento psiquiátrico
Diário de uma mãe em surto: o fundo do poço
Diário de uma mãe em surto: Noite de Natal
Diário de uma mãe em surto: Culpa Zero
Diário de uma mãe em surto: Angra dos Reis
Diário de uma mãe em surto: no bar do Otacílio
Diário de uma mãe em surto: cantada de pedreiro
Diário de uma mãe em surto: rapazinho robusto
Diário de uma mãe em surto: festa de aniversário
Diário de uma mãe em surto: reunião da escola
Diário de uma mãe em surto: mãe culpada
Diário de uma mãe em surto: Domingo de Páscoa
Diário de uma mãe em surto: Traumas de Infância
Diário de uma mãe em surto: primeiro dia na escolinha
Diário de uma mãe em surto: empregada canalha
Diário de uma mãe em surto: Último dia de licença maternidade
Diário de uma mãe em surto: Um mês após o nascimento
Diário de uma mãe em surto: existe vida pós-cesárea
Diário de uma mãe em surto: o grande dia
Viajando de ônibus
Gente chata cansa
O que me falta
O lado B da gravidez
Confissões
Quando a política contamina o futebol
Dividir a vida
O que te move?
Eu, vocês e minha escrita
 
© CaçapavaOnline.net 2014 - Todos os direitos reservados.