Diário de uma mãe em surto: existe vida pós-cesárea

Totalmente recuperada da cesárea, senti uma espécie de vontade de levantar daquela maldita cama e sair de casa desesperadamente cantando “Somewhere over the rainbow” pela rua à procura dos raios de sol. Estava tão feliz de descobrir que existe vida pós-cesárea que até o fato de meus seios jorrarem leite nos azulejos na hora do banho virou algo engraçado e divertido. Pra completar não existe mais sangue na história e minha vida agora chega ao nível de Arlindo Orlando que o tempo todo esteve se sentindo assim. Posso curtir meu bebê faceira da vida e até passear com ele pela cidade para tomar um sol.

Então chega a madrugada, tivemos um dia cheio de novidades. Aquela coisinha gostosa que só o que sabe fazer é mamar, chorar, dormir, fazer xixi e cocô, preenche meu dia com uma alegria inexplicável. Volto à infância como se estivesse brincando de boneca. Tudo mágico, surreal. Me pego olhando para a cria dormindo durante horas com um sorriso largo no rosto sem perceber que o tempo passou.

Mas para o bebê que dorme o tempo todo, não existe relógio. E então ele resolve acordar às três da manhã para dar aquela mamada amiga que só sua mamãe linda pode proporcionar. Eu já preparada psicologicamente encaro numa boa até perceber que com o passar dos dias aquilo está perdendo a graça. Minha brincadeira de bonecas começa a dar sinal de que não estou mais tão a fim de brincar. Mas o “bonecrinho” continua me olhando com aquela cara já menos feinha desde que saiu da maternidade e sinto um amor tão grande por ele que resolvo aguentar mais um pouco e fazer o que ele está pedindo. Mesmo porque se não fizer ele chora como se não tivesse vizinhos por perto sem a menor cerimônia.

Amanheceu e tive a nítida sensação de ter sido atropelada por um caminhão boiadeiro onde conseguia ouvir alguns mugidos no subconsciente confuso. Percebi que aquela alegria repentina que sinto de vez em quando passa em certos momentos e do nada sinto uma enorme vontade de chorar quando alguém toca à campainha. Preciso desesperadamente dormir, mas entendo que as pessoas querem conhecer o bebê e me fazer um agrado. Comecei a desenvolver técnicas de congelamento de sorriso e estou craque em deixar a boca sempre na mesma posição enquanto deixo a visita falar sobre qualquer assunto enquanto segura meu bebê. Estou ficando boa nisso. Qualquer dia atingirei nirvana em pleno momento de visitação. Só que um pouco diferente, pois minha meditação sempre envolve mortes. Sinto uma espécie de alívio ao me concentrar nas cenas em que estou matando as visitas com as próprias mãos.

Após algumas horas intermináveis de conselhos de como eu deveria limpar as orelhas do meu próprio filho, a visita foi embora e retornei às atividades com a cria. A campainha tocou novamente e o ciclo de visitas recomeçou. Arlindo Orlando ficou todo animado, pois eram seus parentes que vieram gritando como se todos na casa fossem surdos. Começaram a gargalhar e bolar altos preparativos para um churrasco regado a muita cerveja como se estivéssemos nadando no dinheiro sem precisar comprar fraldas e pomadas caríssimas a cada ida à farmácia. Minha vontade era de matar Arlindo Orlando asfixiado com a bombinha de tirar leite dos meus seios. Quando penso que nada poderia ser pior, vejo malas espalhadas pela casa.  

 

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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