Diário de uma mãe em surto: Um mês após o nascimento

Trinta dias se passaram e a impressão que eu tenho é que estou há um ano andando de montanha russa. Às vezes estou lá em cima sentindo um friozinho na barriga, outras vezes lá em baixo com vontade de cortar os pulsos. Isso sem falar no looping que minha cabeça dá pela falta de um sono com qualidade. Já estou craque em fazer as coisas no piloto automático e acho que apocalipse zumbi é fichinha perto do que está me acontecendo. Esses dias, confesso que pensei em suicídio, mas lembrei do pudim maravilhoso que tinha na geladeira e acabei desistindo. Já amamento em qualquer lugar e não estou nem aí se o padre está na sala me visitando e pode se sentir constrangido com a cena.

A criança chora e já sei os motivos, logo vou providenciando o que ela necessita com a maior tranquilidade e sono que uma pessoa pode ter. As visitas continuam e ultimamente tenho utilizado o cansaço como desculpa para nem precisar sorrir mais das piadas que elas insistem em fazer para me fazer sentir melhor por piedade, pois sei que notam que estou acabada.

Ontem minha irmã se ofereceu para ficar com o bebê para que eu fosse à estética dar uma ajeitada no visual e renascer porque sentiu pena de me ver com a raiz do meu cabelo com meio metro de fio branco aparecendo e as unhas sem manutenção alguma, somente cortadas com o próprio cortador de unha do bebê. Nem lembrava mais que as pessoas pudessem ir ao salão. Descobri em mim um sorriso largo no rosto onde nem pensei duas vezes antes de aceitar a generosidade dela. Entreguei a cria em seus braços como se estivesse me livrando de uma bomba nuclear e saí correndo logo de uma vez antes que ela desistisse da gentileza.

Cheguei à estética acabada. Percebi o quanto é bom outros assuntos que não seja cor do cocô, vômitos e cólicas e com toda a sinceridade do meu coração considerei o barulhinho de secador de cabelo o melhor barulho do mundo ao invés de um chororô. Por alguns instantes achei a cera quente da depilação a melhor sensação do mundo diante de tudo que eu estou passando em casa. Descobri que existem dois olhos no rosto no lugar daquele mato que estava chamando de sobrancelha. Me despedi da imagem de Salvador Dali quando a depiladora arrancou meu buço ridículo que me fazia parecer suja depois de comer um Jamelão e eu simplesmente não estava notando. Minhas unhas estão lindas, meu cabelo renovado. Deu até tempo de fazer uma escova para sair esvoaçante por aí. Olhei no espelho e minha vontade era de fazer um gesto de esfregar as garras no ar como um felino. Sempre achei sexy fazer isso. Mas o que é isso? Minha camisa começou a pingar leite. A sirene de vazamento em minha “praça de alimentação” começa a soar... Nisso toca o telefone. É minha irmã enlouquecida me chamando de volta porque o bebê não para de chorar.  Com sorte chegarei em casa só depois que o esmalte secar.

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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