Diário de uma mãe em surto: Último dia de licença maternidade

Segunda-feira, primeiro dia de trabalho pós-licença maternidade. A criança não está nem aí pra mim. Ta lá tranquila dormindo no bercinho e eu? Eu sou aquela que vai até a porta e volto com quatrocentas e cinquenta recomendações para a babá. Então pego a chave do carro e vou até a porta e quando chego ao tapete de entrada volto para colocar a mão na frente do nariz da cria para ver se ela está respirando. Com dó me afasto devagar sentindo que não vou conseguir sair dali nunca mais. Mas em algum momento eu sei que estou atrasadíssima e que preciso do emprego para sustentar aquele bebezinho que ali está e então finalmente me encho de coragem e saio.

Eu saio. Mas meu coração e minha cabeça ficam. E quando eu falo ficam, é porque ficam mesmo. De maneira que até percebo o cumprimento dos colegas por tanto tempo sem ver minha cara e não estou nem aí com nenhum deles, quero mais é voltar para casa de uma vez.

No meio de uma reunião cujo assunto é importantíssimo, deparei-me pensando na carinha do meu filho naquela hora que estava amamentando e ele segurou meu seio com a minúscula mãozinha e acabei chorando de emoção. A reunião? Que reunião? Do que eles estão falando mesmo? Preciso sair discretamente e ligar para casa para ver se está tudo bem.

Então quando estou arrumando minha pasta para sair correndo dali logo de uma vez, alguém chega dizendo que prepararam uma recepção para comemorar meu retorno ao trabalho. E eu que estava pensando em pedir demissão. Como não sou uma troglodita insensível, não poderia sair numa hora daquelas não é mesmo? Acabei ficando mais um pouco e mesmo com a cabeça em casa, tentei me divertir com meus amigos. Meu celular toca e o meu coração dispara. Será que é de casa? Meu Deus! Aconteceu alguma coisa! Deve ser grave!

- Alô! (a essa altura o coração já está batendo na boca)

- Dona Ana é a Creusa!

A Creusa está calmíssima ao telefone falando praticamente em câmera lenta ao contrário de mim.

- Eu sei Creusa, vai diz logo de uma vez, aconteceu alguma coisa, fala logo!

- Eu queria pedir para a senhora na hora que a senhora vier daí pra comprar uma pomada para assaduras.

- Meu Deus! Ele está muito assado? Ta vermelhinho? Ele está chorando Creusa, o que está acontecendo?

- Nada não, ele está bem, mas a pomada está querendo terminar.

- Mas Creusa ele está chorando, eu estou ouvindo daqui (nisso você já está abrindo a porta do carro e saiu sem se despedir de ninguém)

- Não se preocupe Dona Ana, é normal esses chorinhos de vez em quando, é que eu deixei ele de bruços um pouquinho para fortalecer o pescocinho e ele está fazendo charminho comigo

- Como assim de bruços? Eu o deixo dez segundos de bruços e viro o bichinho porque ele não gosta. Creusa pegue essa criança imediatamente no colo! Agora ou você está demitida!

- Dona Ana se acalme! Ele até já parou de chorar, está no meu colo. Está tudo bem.

- Creusa eu preciso desligar, mas estou indo pra casa, chego em poucos minutos, pare de virar meu filho de bruços, pelo menos longe de mim (e desliga o telefone).

Aos poucos fui me acalmando porque no fundo sabia que não precisava tanto escândalo por causa daquilo, mas fingi ser apenas uma mãe zelosa no primeiro dia pós – licença maternidade. Então o trânsito estava uma droga e resolveu não colaborar com minha enorme vontade de chegar em casa. Além disso, acabei me dando conta que fui uma grossa com a Creusa e que simplesmente abandonei meus colegas na festa que eles prepararam para mim com tanto carinho. Peguei o celular para ligar de volta para o trabalho para inventar uma desculpa esfarrapada e a bateria havia terminado. 

No silêncio do carro, trancada no trânsito, refleti que preciso aprender a lidar com isso porque de certa forma é bom ficarmos distantes de vez em quando. Haverá momentos que eu vou querer é ficar sozinha, principalmente quando estiver no banheiro e aquela criatura minúscula começar a bater na porta chorando insistindo para entrar junto aonde deveria ser o reduto de paz e privacidade para todo e qualquer ser humano.  É... Pensando bem... Vou deixar ele se acostumar com minha ausência. Tomara que o engarrafamento demore bastante. Sim, sou dessas. Nem to. Me julguem.

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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