Diário de uma mãe em surto: empregada canalha

Acabei pedindo demissão do emprego porque o que eu estava pagando para a empregada era mais que o meu salário. Além disso, Creusa estava me tirando do sério com a mania de comer o iogurte da criança enquanto dava a papinha.

Arlindo Orlando só reclamando em meus ouvidos porque toda vez ela queimava com ferro suas camisas que ele nem havia terminado a sexta prestação. Nossa casa estava tão suja que as teias de aranha eram enormes a ponto de não me surpreender caso o Homem-Aranha surgisse por ali pendurado no meio da sala. Quebrava todos os copos, deixava sabão na louça, implicava com o cachorro e ainda comia meus produtos da dieta que são bem mais caros, onde ficava me torturando decidindo se compraria ou não para não estourar o orçamento do mês, na esperança de perder a graxa da pança adquirida na gravidez.

Já peguei Creusa mexendo o suco com a mão para não ter que lavar uma colher, comia tudo que enxergava na geladeira e sabia cada centavo que eu tinha na carteira. Um dia ela teve a infeliz ideia de levar sua filha para minha casa e ela simplesmente destruiu tudo que meu filho mais velho nunca destruiu em oito anos. Sim, eu tenho um filho mais velho. Tudo que estou vivendo eu já sabia que não ia dar certo, mas um belo dia resolvi engravidar de novo mesmo assim.

Acho que Creusa era psicopata. Não tinha nenhum dente na boca e tenho pra mim que ela estava armando um plano secreto para me destruir e casar com Arlindo Orlando. Tinha a impressão que ela colocava veneno de rato no açúcar, imaginava ela em encruzilhadas fazendo macumba com a cueca de Arlindo Orlando porque leu naquelas revistinhas de rodoviária que babalorixá docô dutifudeu disse que fazia o amor da vida dela ser agarrado em uma semana. Precisava me livrar daquela inimiga dentro de casa. Ainda mais pagando por isso.

Certa vez Creusa quebrou o pé bem no dia que eu mais precisava da infeliz. Deixou-me esperando durante horas até resolver me ligar avisando. Tinha que trabalhar e não tinha com quem deixar as crianças. Depois a encontrei na rua correndo para pegar uma ficha na fila de uma loja que estava promovendo uma liquidação. Não tinha absolutamente nada em seus pés.  Pra completar ela jogou alvejante sanitário na minha calça predileta que eu paguei em oito vezes com sacrifício. “Q-bom” encontrar aquela calça maravilhosa com aquela manchinha toda especial que só a Creusa poderia me proporcionar, não é mesmo?

Mas o prêmio vai para a categoria esconde-esconde. Creusa era “expert” em esconder nossas coisas e utilizava minhas gavetas como buraco negro. Acho que ela imaginava que dentro delas existia o javali do Fred Flintstone que comia tudo que ele jogava na pia. Abria a gaveta, enfiava todos os objetos soltos pela casa ali dentro e fechava achando que assim tudo estaria organizado. Simples assim.

Sábado de manhã ela ligava o aspirador de pó de manhã cedo, mas era só porque eu estava cansada de trabalhar a semana toda e tinha que acordar às seis da manhã para trabalhar. Por mais que eu pedisse para deixar essa tarefa para depois, ela sempre fazia do jeito dela. Inclusive esse jeito é o mesmo que não sabe diferenciar as meias do meu filho de dois anos do meu marido de quarenta.

Bom mesmo era o café da manhã acompanhado de notícias quentinhas direto da laje, onde ficávamos sabendo que o Robson esfaqueou a Ivonelde porque ela estava transando com dois caras da vila e o amante da Onilva descobriu. E ainda acrescentou um diálogo contando que estavam cheias de hematomas porque se “pegaram no pau” no meio da rua com a mulher do ex-marido porque estavam com um “raivedo” pelo corpo. Para fechar com chave de ouro ela puxava aquele pigarro lá do dedo do pé e engolia enquanto eu desistia do café e ia trabalhar em jejum.

Creusa adorava um velório, mesmo se o defunto fosse desconhecido. Lamenta até hoje a morte do “Tranquedo” Neves. Não consegue dizer pizza e sempre fala um palavrão na tentativa de conseguir. Adora uma fofoca e falar “ansim desse jeitu, com uns corte, aburrecida”. Daqui uns dias, meus filhos estarão falando assim também.

A gota d´água foi o cigarro. Não deu para aturar. Chegava em casa e ela estava cozinhando e fumando um cigarrito véio com um dos olhos fechados mexendo a panela. Ficava batendo boca reclamando que tinha que lavar as “cutrina”. Eu já não podia mais ouvir a palavra “alicatre” dentro de casa. Era difícil entender o que tinha que comprar no supermercado. Nossa comunicação estava ficando complicada. Minha lista era mais ou menos assim:

aseite de olívia

Sebola

Tumati

Beico

Coiso do banheiru

Coiso da coisarada

Ela era apaixonada pelo o que chamava de “rome titi” que instalaram na sala e tenho pra mim que era isso que atrasava a limpeza da casa toda. Sua mãe vivia doente. Tinha trombose, “istroprose”, caruncho, berne, gonorréia, “sífi”, dor no “figo” e “penicite”, mas sempre era atendida por médicos bons que receitavam um “antidioti” daqueles que melhora até defunto.

Não sei de nada, só sei que Arlindo Orlando será o único provedor da casa agora. Estou assumindo meus filhos e minha casa com muito orgulho. Só não sei como ficará a questão das minhas férias daqui um tempo. Mas isso eu vejo depois.

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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