Diário de uma mãe em surto: primeiro dia na escolinha

Hoje é um grande dia! Meu bebê preparado para ir para a escolinha. Arrumei meu garotinho de macacão e boné. Passei um perfuminho que comprei em oito prestações e mandei para a escola como se fosse para uma festa. Fiquei ao seu lado acompanhando todos os momentos e tirando muitas fotos com meu telefone que comprei em doze parcelas e ainda não terminei de pagar.

Cada movimento que a criança fazia era um flash. Achava tudo lindo, até quando ele enfiou todo o dedinho no nariz, puxou um tatuzinho e depois comeu. A professora pediu que eu me afastasse aos poucos, mas cada vez que tentava fazer isso, Pedro corria para minhas pernas e não largava por nada do mundo.  Nunca falei o nome de meus filhos né? O mais novo é o Pedro, o mais velho é João. Queria algo assim curto e grosso. Comum e forte. Mesmo porque tive discussões horrorosas com Arlindo Orlando sobre o nome das crianças. Ele insistia em misturar nossos nomes Ana e Arlindo e transformar em Anaurelindo. O João ele quase colocou Arlindo Orlando Júnior, mas como ameacei me separar, não deixar ver as crianças, chantageá-lo a cada dois dias por telefone, fazer pressão psicológica por qualquer coisinha, parar de trabalhar pedindo pensão pra mim inclusive e implicar com todas as namoradas que ele viesse a ter se ele fizesse isso, ele não teve coragem de me enfrentar.

Então, como eu tava falando, o Pedro dificultou muito nosso primeiro dia na escolinha. Teve momentos tensos onde ele chorava tanto que fazia uma bolinha de ranho em seu nariz como se fosse um pequeno balão. Aquilo me agoniava mais que o choro em si.

Nisso outra mãe chegou com seu filho e disse que iria tomar uma injeção bem grande num hospital e teria que deixá-lo ali. Obviamente que a criança começou a chorar tanto quanto o Pedro, pois não queria que a mãe tomasse injeção. Ainda mais com todo aquele drama que ela estava fazendo, até eu já estava pensando que a mulher morreria antes de voltar para buscá-lo.

Depois de um tempo, percebi que a única criança que não estava chorando era um menininho tímido que estava num cantinho encolhido com vergonha de chorar. Minha cabeça doía e quase desisti de deixar Pedro por ali. Mas sabia que tinha que ser forte. Aos poucos todos foram ficando com sono e acabaram dormindo no cantinho da soneca.  Dei graças a Deus e simplesmente desapareci. Seriam algumas horinhas de paz e silêncio para aproveitar. Se tivesse algum cemitério por perto iria adorar visitar algum túmulo, pois seria a coisa mais silenciosa que me vinha em mente.

O tempo passou voando e tinha que buscar meu ranhentinho na escolinha depressa para ele adquirir confiança e saber que a mamãe o buscaria rapidamente sem que ele se sentisse abandonado. Chegando lá ele estava sentadinho numa cadeirinha do castigo, viradinho para a parede em meio ao caos instalado no local. Cinco crianças chorando desesperadamente com mordidas em suas bochechas e meu filho ali com cara de mau.

Foi como se um filme passasse em minha cabeça, imaginei um futuro negro com um filho psicopata em casa, expulso da escola sob acusação de um professor de ficar olhando para a alma de um colega sentado ao seu lado.

A professora com sua voz doce, gentilmente com um sorrisinho amarelo pediu que conversássemos separadamente. Peguei meu pequeno psicopata pela mão e o levei até o parquinho da escola conosco. Enquanto ele comia areia, a professora me explicava que teria que trabalhar a personalidade forte dele em casa, pois não poderia ficar mordendo os coleguinhas como se fossem pedaços de picanha na tábua.

Saí de lá arrasada. Sem chão. Mesmo assim, olhei para o ranhentinho psicopata que mais parecia um croquete de tanta areia, peguei meu celular e tirei mais uma foto de recordação.

 

 

 

 

 

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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