Diário de uma mãe em surto: Traumas de Infância

Acho que essa minha mania de falar sozinha é por causa dos amigos imaginários que brincavam comigo na infância. Eu sabia que o roupeiro era o roupeiro, mas fazia de conta que tinha alguém ali batendo papo comigo. Para quem olhava de longe ficava esquisito. Praticamente um caso de psiquiatria. Entrava no box do banheiro e fechava a porta. O mais legal era encolher um pouco as pernas porque o elevador havia chegado ao seu destino. Lá estava eu com uma boneca embaixo do braço falando sem parar. Gostava disso.

A diferença de idade de minha irmã mais velha é de cinco anos. Isso é tempo pra burro quando a irmã menor decide que quer participar do mundo da maior. Então lá estava eu com minhas bonecas, falando sozinha sem parar e chega minha irmã estranhamente simpática querendo que eu fosse a filha dela numa brincadeira com as amigas. Eu tinha que obedecer à risca tudo que ela mandava, fazendo coisas que nem minha mãe seria capaz de pedir. Buscar coisas no mercadinho da esquina, lavar coisas para ela, arrumar toda a bagunça do quarto, por exemplo.

Um belo dia estávamos tomando banho juntas na banheira. Engraçado, parecia tão grande! Era o nosso navio, o que é mais estranho ainda, pois se tiver água dentro do navio afunda, não? Enfim... Lá estávamos nós, era divertido. Minha irmã enfim minha amiga brincando de aventuras marítimas sem brigar comigo. Foi então que ela me fez a proposta de ver quanto tempo eu aguentava embaixo d´água. Nem tive tempo de recusar, pois imediatamente ela executou o que havia proposto e eu juro que pensei que naquele dia iria ver Jesus. Ju-ro! Ela segurava a minha cabeça com força e eu tentava me livrar daquela pressão me debatendo com as mãos e os pés. E ela lá, achando o máximo eu conseguir sobreviver todo aquele tempo.

Sobrevivi. Não sei como, mas estou aqui hoje para contar essa história. E como se não bastasse a tentativa de homicídio dentro da minha própria casa, a minha irmã assassina, graças a Deus incompetente, resolveu, também num banho desses, me ajudar na tarefa de tirar a mancha de um remédio que eu estava tomando e que deixava minha língua cor de rosa. Mandou que eu esfregasse bem o sabonete na língua com bastante força, e eu, boca aberta, literalmente, fiz o que ela mandou. Lembro bem da minha expressão naquele dia, com a língua toda pra fora paralisada dizendo com dificuldade: Tá ardendo mana!

Uma irmã mais velha pode ser muito mais perigosa do que se imagina, então chega um momento que “pamonhisse” tem limite e a gente acaba aprendendo a se defender. Como eu tinha um pequeno probleminha nos vasos nasais, qualquer coisinha ocasionava uma hemorragia nasal. Foi então que tive a brilhante ideia de vingança quando minha irmãzinha me deu um tapão no nariz e a bendita hemorragia começou, bem na hora que minha mãe estava chegando do trabalho. Fui para o banheiro, tranquei a porta e estimulava o sangramento. Quanto mais sangue saía, mais eu esfregava pelo rosto todo enquanto minha irmã desesperada batia na porta e gritava:

- Abre maninha! A mãe já tá chegando!

E eu? Não abri. Só para a minha mamãezinha depois. Uórrarrarrarrarrarra.

Deve ser por isso que hoje meu filho mais velho adora traumatizar o irmão mais novo. Cheguei no quarto e o guri estava todo atado com uma fita crepe só com o nariz e os olhos pra fora tentando gritar sem sucesso enquanto João o ameaçava com um espeto de churrasco. A parte ruim dessa história é que agora não podemos fazer churrasco por um bom tempo, porque se ele enxerga o espeto começa a tremer e gritar.

 

 

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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