Diário de uma mãe em surto: Domingo de Páscoa

- Oi pessoal, tudo bem? (Cheguei querendo dar um “oi” geral para ver se escapava daquela beijação chata em duzentos e quarenta e seis pessoas, mas percebi que seria em vão).

- Oi guria, vem aqui dar um beijo no teu tio! (Aquele tio camarada que não via há mais de um ano, tá bom... Esse realmente merecia um beijo).

Só que o beijo em meu tio camarada acabou puxando o temido BSCOS (Beijo Sequencial Chato Obrigatório por Segundo). Comecei beijando o tio e terminei muito tempo depois na décima segunda namorada do mês que meu sobrinho resolveu apresentar. Nisso as pessoas começaram a perguntar sobre meus filhos e constatei que eles haviam sumido apesar de ouvir de longe algo com uma voz parecida gritando com os primos menores. Uma verdadeira gritaria e poluição sonora num só ambiente.

Em toda família sempre tem aquele marido de tia que senta a bunda no sofá e não levanta para nada. Fica só observando tudo com atenção e tomando cerveja calado. Não quer perder nenhum detalhe para comentar em casa depois algo do tipo: "Como a cunhada engordou ou como os filhos de beltrano estão mal-educados".

Tem também aqueles que sorriem o tempo todo e não estão nem aí pra nada. Ficam hipnotizados com o que tiver passando na televisão e a gritaria do ambiente não os afeta em nada. Existe sempre aquele grupinho polêmico que lá pelas tantas resolve levantar uma questão promovendo um verdadeiro alvoroço na roda de conversa. Quem olha de fora pensa até que estão brigando.

E aqueles primos adolescentes, que não se encaixam nem na classificação criança, muito menos na classificação adulta e ficam completamente perdidos, num eterno dilema entre ceder a seus instintos e agarrar o vídeo game do primo mais novo ou fazer cara de intelectual e participar da conversa chatíssima dos adultos.

Família é tudo igual. Só muda o endereço. Normalmente a vítima dona da casa que abraça um evento desses é a matriarca da família que aparece nessa história nitidamente estressada. Ela até tenta disfarçar, mas está sempre de butuca ligada para ver se não está faltando comida para ninguém. Aliás, vocês perceberam a necessidade que nossas avós têm de enfiar muita comida na gente como se estivéssemos desnutridos e aquele almoço fosse a última refeição de nossas vidas?

Muito bem, posso escolher um ponto de destaque num domingo de páscoa em família. As crianças. Algumas delas resolvem levar a cestinha que o coelhinho deixou para mostrar para os priminhos e, além disso, os padrinhos costumam levar para o evento mais cestinhas repletas de chocolates. Então aquelas miniaturinhas de seres humanos resolvem se unir para comer chocolates antes mesmo do almoço e quando menos se espera a infecção intestinal está montada. A festa em família termina no Pronto Socorro da cidade e após o susto começam as discussões sobre quem foi o irresponsável que deixou as crianças comerem tanto chocolate e não fez nada para impedir aquela “catástrofe gastrointestinal”. Sem falar nas minhas roupas que toda vez que tem páscoa resolvem encolher. Odeio isso!

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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