Diário de uma mãe em surto: mãe culpada

Não adianta me dizer que é assim mesmo e que devo aceitar. Eu não consigo. É mais forte do que eu. Tudo que acontece na vida dos meus filhos sinto que a culpa é minha.

Se eles se machucam a culpa é minha. Se eles estão doentes a culpa é minha. Se forem mal na escola a culpa é minha. Se não são um exemplo de educação adivinhem? A culpa é toda minha. Se não dormem na hora, pelas dores e seus medos, pela dor de dente, dor de barriga na madrugada. As lágrimas vertidas quando o primeiro amor fez-se despedida. Sinto culpa por não poder ter ido naquela apresentação da escola que um deles insiste em me lembrar “ad eternum” como se fosse a coisa mais monstruosa do mundo. Acho que poderia passar mais tempo com eles fazendo atividades que envolvam a família, mas quando vejo mais um dia se passou e eles ficaram no quarto isolados jogando vídeo game. É como se meus meninos estivessem crescendo despedindo-se aos poucos e eu por estar exausta fico sem forças para mudar a situação.

Tem horas que sinto tanta culpa que os músculos das minhas costas doem. Cometi tantos equívocos simplesmente por não saber como agir, por estar cansada e impaciente que acabei experiente em errar. Acho que essa sensação de culpa nunca mais vai sair de dentro de mim. Só sei que a gente acostuma. É como morar num apartamento de fundos e não ver uma vista melhor do que um poço de luz embolorado num prédio que não pega sol. E como não olha pra fora logo acostuma a não abrir as cortinas. E como não abre as cortinas não percebe que precisa buscar algo novo para renovar as sensações da vida.

Talvez minha culpa seja de não sair da inércia. Vivo tão focada na maternidade e na felicidade dos meus filhos que acabo esquecendo de mim mesma. Às vezes me pergunto se eles não seriam mais felizes se tivessem uma mãe feliz, e enquanto procuro pensar no que realmente me faria feliz já tenho que pensar no que fazer para o jantar.

A gente acostuma a coisas demais na tentativa de não sofrer sem perceber que essa maneira de agir trará mais sofrimento. Então você aceita um desagrado aqui, evita fazer o que gosta ali, abre mão dos seus sonhos para dar lugar aos sonhos dos seus filhos e quando vê ninguém nem notou que há anos você se arrebenta pela família e sente uma culpa desgraçada por não estar obtendo os resultados desejados diante de tantos sacrifícios.

Quero ser culpada pelos elogios recebidos, pelas medalhas estampadas, pelos diplomas emoldurados em uma parede na sala. Quero que me culpem pela alegria de meus filhos, pelo seu caráter e educação. E para isso, preciso aprender a dizer não.

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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