Diário de uma mãe em surto: festa de aniversário

Festa de aniversário de criança é a melhor coisa que existe quando estamos na posição de convidados. Do contrário deveria ser proibido. Muita gritaria, criança pisando em docinhos pelo chão, derrubando refrigerantes, puxando cabelo, empurrando, mordendo e enfiando o dedo no olho do amiguinho para testar experiências científicas.

Existe uma estratégia clássica que é entupir os convidados de cachorro-quente para ver se embucha todo mundo e assim possam ir embora logo de uma vez proporcionando que aquele maldito sapato de salto possa sair do seu pé e ser substituído por uma confortável pantufa no retorno ao lar. Mas quando somos convidados a coisa muda de figura. Gostamos de sentar em algum cantinho com visão periférica e ficar de butuca ligada nos acontecimentos enquanto comemos e damos boas risadas sem a menor pressa de ir embora. 

É simplesmente maravilhoso ser convidado. Sentamos a bundinha na cadeira e observamos os mínimos detalhes da decoração. Enquanto isso há uma miniatura de ser humano no canto da mesa bem concentrado com metade do dedo no nariz numa tentativa ferrenha de resgatar com vida um tatu amigo. Sim, pólipos nasais mesmo. Vulgo, meleca. E resgata com sucesso. Pior, dá uma boa olhadita para o vivente e o come. Ao ver a cena, senti um nojinho e engoli meio atravessado aquele pedaço de salgadinho que estava comendo, tentando mudar o foco para não pensar mais no assunto. Percebi que haviam docinhos diferentes pela mesa. Fui até lá discretamente e escolhi o mais enfeitado para saborear. Ao colocar na boca senti um gosto estranho de abóbora com doce de côco e um leve aroma de cravo. Minha vontade era de cuspir longe aquela porcaria que o que tinha de lindo, tinha de ruim. Procurei desesperadamente por um guardanapo para cuspir o maldito doce quando de repente chegou a anfitriã e perguntou se estava gostando da festa. Engoli aquele troço horrendo como se fosse um olho de ovelha descendo pela goela e respondi que estava achando tudo perfeito.

Ela então ficou do meu lado e perguntou se eu havia provado os doces de Dona Cotinha, uma doceira muito querida na cidade que estava presente na festa. Fez sinal para a mesma e pediu que viesse explicar cada um deles para minha felicidade ficar completa. Podia sentir os músculos da minha face endurecendo e minhas bochechas ficando vermelhas por querer sair correndo dali. Dona cotinha muito solícita escolheu justamente o doce maldito e antes que pudesse explanar qualquer coisa dobrou a forminha com entusiasmo e aproximou-o de minha boca para que mordesse o maldito doce desgraçado. Eu disse que estava meio enjoada de tanto comer doces, pois estavam muito bons, mas ela insistiu tanto que acabei mordendo aquela bolota horrenda e engolindo rapidamente para que tudo passasse logo. Senti uma lágrima saindo pelo canto do olho esquerdo e pedi licença. Fui ao banheiro na esperança de poder vomitar e havia uma fila de mulheres aguardando para fazer xixi. Conversavam coisinhas bobas sem a menor importância só para ter assunto entre si, já que não tinham intimidade alguma e simplesmente estavam num banheiro no mesmo evento. Queria tirar uma a uma pelos cabelos dali, mas aguentei firme com um sorriso amarelo enquanto aguardava minha vez. É impressionante como tudo fica irritante quando se está enjoada ou com dor de barriga e as pessoas não param de falar. Como estava muito demorado resolvi sair e ir para o lado de fora da festa, na esperança de encontrar algum cantinho secreto onde pudesse vomitar em paz.

Caminhando pelos arredores, encontrei um canto sereno atrás de uma árvore. Fui em direção à árvore como se estivesse enxergando um oásis numa longa caminhada no deserto. Apoiei-me em seu tronco e quando fui respirar fundo para vomitar, uma miniatura de ser humano maquiavélico empurrou-me por trás e gritou: TÁ COM VOCÊ! E saiu correndo pátio à fora. Nisso o vômito subiu. Algumas crianças viram a cena e saíram gritando enquanto meus filhos choravam de vergonha pedindo que fôssemos embora. Agora toda vez que alguém fala em aniversário lá em casa, me perguntam se é com vômito ou sem vômito. Estou pensando seriamente em reclamar no Ministério Público alegando que minha própria família está fazendo bullying comigo. Não sei. Só sei que passei a odiar aniversários, quer esteja na posição de convidada ou não.

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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