Diário de uma mãe em surto: no bar do Otacílio

Minha noite com Arlindo Orlando não deu muito certo. Eu estava toda, toda, toda, toda e ele chegou tarde com um bafo de cigarro que mais parecia um cinzeiro ambulante dizendo que havia perdido no jogo de sinuca no bar do Otacílio.  Nisso meu filho mais velho veio chorando para o meu lado dizendo que estava doendo a garganta enquanto o mais novo chorava por causa de um corte no dedo.

Minha vontade era de sumir. Arlindo Orlando com toda a sua frieza de sempre olhou para mim e percebeu que havia algo diferente. Ele também deveria estar sentindo minha falta depois de dois meses sem uma aproximação íntima. Acho que eu estava parecendo uma cadela no cio, só que a diferença é que os filhotes estavam querendo mamar na cadela para cortar o barato.

Arlindo Orlando teve a brilhante ideia de chamar sua irmã para cuidar das crianças para que pudéssemos ir ao Bar do Otacílio para arejarmos a cabeça e sair daquele ambiente tão rotineiro. Eu não estava imaginando exatamente o bar do Otacílio, mas diante das circunstâncias qualquer coisa sem um filho berrando por perto era luxo.

Chegando lá Arlindo Orlando decidiu puxar um cigarrito do bolso e achando que estava sensualizando com um dos olhos fechados por causa da fumaça me olha e diz: - E aí? Que tal bebermos algo para depois dar uma esticadinha na noite, hein patroa?

Achei aquele “patroa” tão broxante quanto o cigarro de Arlindo Orlando. Detesto aquele cheiro.  Sinto como se alguém estivesse esfregando um cinzeiro no meio da minha cara. Acho que é por isso que não beijo meu marido há mais de um ano.  Para a noite ficar um pouquinho pior, Otacílio mandou servir em nossa mesa ovinhos de codorna e amendoim porque viu Arlindo Orlando piscando para ele. Aquilo me deu um ódio tão grande que comecei a beber tequila para ver se alguma coisa no ambiente ficaria agradável.

Acabei ficando de porre, meu marido que já estava mais pra lá do que pra cá acabou cedendo à pressão dos amigos e foi jogar sinuca. Foi me subindo um raivedo, mas um raivedo que acabei tomando mais umas quatro tequilas. Nisso, chega uma criatura tão bêbada quanto eu que sem perceber minha aliança no dedo começa a me cantar no balcão do bar. Tinha um semblante extremamente sério. Tem coisa pior que uma pessoa totalmente séria o tempo inteiro? Tem. A pessoa que mesmo bêbada não deixa de ser séria.

Já estava podre de nojo daquela pessoa que não achava a menor graça das minhas piadas. Tá certo que eu não lembro delas na hora de contar, mas estando bêbado, até isso fica engraçado. Coisa mais chata o tal bêbado intelectual. A gente não tem assunto com ele, até porque ele normalmente nem te deixa falar. Fica lá, conversando sobre o aquecimento global no meio da balada no momento que ela está bombando.

Foi então que tive uma ideia brilhante. Debochar do cara e sair de fininho. Tomei um golão de tequila, olhei bem pra cara da criatura e disse:
- Muito legal lutar pela causa das baleias francas da Amazônia, separar o lixo para proteger os ornitorrincos na selva do Alaska. Sentar numa pedra de madeira e olhar para o nada enquanto as vacas voam e os passarinhos pastam. Mas agora eu preciso "mijar" cumpadi!

Dica de ouro para as mulheres: Falar a palavra "mijar" afasta imediatamente qualquer possibilidade de aproximação. Depois disso pode ir para a casa descansada que nada mais vai te acompanhar. Se soltar um arrotinho então, perfeito!

 

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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