Diário de uma mãe em surto: Angra dos Reis

Todo dia que ia ao supermercado preenchia uma fichinha para concorrer a uma viagem. Acho que imaginei tanto aquele prêmio que acabei sendo sorteada. Como meu marido é um troglodita dos infernos, disse que aquilo tudo era uma bobagem de gente que não trabalha e não tem mais o que fazer.  Fiquei tão braba que arrumei minhas malas e acabei indo sozinha. 

A programação incluía o transporte até o barco, depois a volta ao hotel, rodízio de frutas durante o passeio, vários intervalos para mergulho e almoço em uma ilha de Angra dos Reis. Estava muito empolgada, apesar de estar sozinha. Quando olho para o lado encontro meu primo Manolo que também ganhou a viagem no sorteio. Ficamos empolgados. Éramos os únicos brasileiros da van. Os gringos que ali estavam pareciam umas gralhas. Não calavam a boca um só minuto. Tudo era motivo de palmas, até mesmo quando um caminhão se atravessou na frente da van e quase nos matou. Eles acharam o máximo, bateram muitas palmas. Fiquei sem entender o porquê, mas tudo bem. Vai ver acharam que aquilo era uma apresentação da agência de turismo mostrando como era um acidente de trânsito no Brasil.

Chegando ao barco, me senti milionária. Tá certo que milionários ficam sozinhos num barco daquele tamanho, mas o “faz-de-conta” é meu e eu imagino o que quiser. Tinha uma música bem animada, garçons passando com fatias de melancia e abacaxi, enfim um “chicume” só. Depois eles passavam bebidas extremamente geladas, mas essas a gente tinha que pagar uns dez reais por fora a cada bebida. Como estava naquele lugar, com aquele sol e aquele vidão, achei o dinheiro troco diante daquilo tudo que estava vivendo. O tal do valor agregado. Fui bebendo e não estava nem aí. Arlindo Orlando tinha me dado um dinheiro para emergências apesar da grosseria de não me acompanhar.

Mas teve uma coisa que foi bem chata que foi explicar toda hora que estava sozinha no barco num passeio daqueles. No mínimo umas quatro pessoas se ofereceram para tirar fotos de mim e meu primo juntos porque ficavam com pena de ver um “casal” separado tirando foto um do outro. Passamos o tempo todo dizendo:
- Não obrigado! Somos primos de terceiro grau e não somos casados. Quer dizer, somos casados, mas com nossos respectivos cônjuges. E bláblábláblá...

Um cearense malicioso e, não posso deixar de contar, “de sunga branca” e com um correntão de prata no pescoço que se ele caísse no mar morria afogado com o peso daquilo, disse:
- Sei, são primos passeando de barco em Angra no meio da semana. Entendo...

E eu que estava mais preocupada em tomar meu banho de sol em paz respondi:
- Sério! Estamos aqui porque ganhamos a viagem num sorteio e só queremos passear de barco em paz.

E o maldito cearense da sunga branca insistia:
- Oxe! Teu marido sabe que tu ta aqui?

E eu:
- Sabe! Liguei e debochei da cara dele porque ele está no escritório no mesmo momento que estou tomando caipirinha olhando para as ilhas de Angra dos Reis às 15 horas da tarde numa quinta-feira.

E ele:
- Eu se fosse teu marido não deixava

E eu:
- Bom, graças a Deus tu não é meu marido.

Enquanto isso outro casal compadecido daquela cena da qual não escutaram nosso diálogo, aproximou-se e um deles disse:
- Hei, se vocês quiserem posso tirar uma foto de vocês.

E eu:
- Não, estou sozinha, esse senhor só está aqui conversando comigo e além disso ele usa sunga branca, jamais seria casada com alguém de sunga branca ...

Parei, pensei e concluí que aquela explicação iria longe. Na real ninguém pode ver uma mulher sozinha que acha que ela deve ter um marido obrigatoriamente no barco, é sapatão ou está disponível "caçando" homem. E eu lá, só querendo dormir um pouquinho no sol levemente bêbada, sem precisar explicar que não queria tirar foto acompanhada de ninguém.

Ainda bem que encontrei duas senhoras de porre que eram de Londres, praticamente atirando-se do barco de tanta caipirinha, que tornaram o resto do meu dia extremamente divertido, apesar do meu inglês estar terrivelmente enferrujado desde a quinta série primária, onde só o que sei falar é “The book is on the table”. Não quiseram me juntar com ninguém para tirar foto, não me perguntaram por que eu estava sozinha e não eram lésbicas, pelo menos até onde sei, elas não me cantaram. Mas como disse anteriormente, sei lá, meu inglês tá realmente muito enferrujado, de repente fui eu que não entendi. Sabe como é... Mulheres sozinhas num barco... Não sei não.

 

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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