Diário de uma mãe em surto: Noite de Natal

Todo ano é a mesma coisa. A dona da casa onde ocorre a festa parece uma barata tonta recebendo a família.

- Aqui tem mais bebida, alguém quer?

Então aquela tia levemente “fortinha” pegando com a mão um punhadinho de farofa  diz:

-Essa farofa ficou uma delícia!

- Fiz essa torta, mas desandou e aquele peru ali tá parecendo uma galinha de despacho com aquele monte de pêssego e farofa que coloquei na volta.

- Meu filho desce daí, tu vai se quebrar guri! Não deveria ter dado o presente agora, só amanhã de manhã. Hã? Telefone pra mim? Tá, já to indo... Alô? Oiiiiiiiiiiii! E aí guria? Feliz Natal pra ti também! Tudo de bom! Ai, cuidado! Não passa com essa moto em cima do meu pé meu filho! Desculpa, onde estávamos? Ah! Um excelente Natal pra vocês! Arlindo Orlando! Cuida o teu filho, por favor, ele está puxando a toalha da mesa... Ah! Desculpe, onde estávamos?

Nisso, alguém grita:

- Acabou a cerveeeeeeeja!

- Já estou indo! Meu filho, o Homem-Aranha da TV pode se atirar do telhado, tu não. Tu vai se quebrar todinho se pular daí de cima, vai sair muito sangue e vai doer insuportavelmente. Provavelmente tu não vai viver para ver, mas... Desce daí já guri! A cerveja já está indooooo.

Todos conversam animadamente na sala. Aparentemente tudo sob controle. O caos é apenas nos bastidores. A música está agradável, a mesa da ceia está linda e a árvore inteira. A cerveja gelada e para quem está tranquilo conversando a festa está até animada. Então Arlindo Orlando adentra a sala no meio da festa com chinelo de dedos perguntando:

- Que roupa eu visto?

- Mas o que tu tava fazendo que não tá pronto ainda vivente?

A escrava Isaura aqui vai até o roupeiro e escolhe uma camisa bonita e constata que está amassada. Passo a camisa enquanto grito para meu sobrinho:

- Não solta o cachorro! Ele fica nervoso quando tem muita gente.

E o cachorro se "mija" todo diante da cunhada da vizinha que ele ama de paixão, além de latir irritantemente e ininterruptamente por alguns minutos. Os convidados se entreolham com um ar de: "Mas por que ela solta esse cachorro pela casa? Será que ela tá achando que alguém gosta desses latidos?”

Lá estava eu tentando pegar o cachorro no meio de pernas e mais pernas sentadas no sofá da sala enquanto o cachorro se escondia. Achava que eu estava brincando com ele. Minha vontade era de grudar uma vassoura na cabeça dele, mas o autocontrole tem que fazer parte de nossas vidas numa hora dessas. Eis que me ocorreu uma ideia:

- A primeira criança que conseguir colocar o cachorro no terraço ganha um panetone.

Ninguém se manifestou. Mudei o discurso:

- A primeira criança que colocar o cachorro no terraço ganha cinquenta reais.

As crianças saíram correndo atrás do cachorro desesperadas gritando.

Quando tudo estava solucionado a promessa dos cinquenta reais ficou para outra oportunidade. Então chegou a hora da ceia. Crianças foram servidas primeiro e ficaram comendo numa mesinha num canto da sala. Num outro canto todos estavam servindo-se animadamente. Minha maior preocupação era se tinha fios de ovos para todo mundo e principalmente se sobraria alguns para a coitada da dona da casa que se endividou para comprar as frescuras da ceia e espera o ano inteiro para comer fios de ovos.

Quando olho para o lado, constatei que as crianças fizeram guerrinha de farofa na minha amada cozinha. Pior que isso, soltaram o cachorro novamente e ele está se deliciando com a farofada. Fui em direção ao armário a procura de um comprimidinho "tarja preta" para enfrentar a noite de Natal e achar tudo mais legal.

Nisso, alguém gritou:

- Acabou a cerveeeeeeeja!

E eu já de saco cheio respondi:

- Vem pegaaaaaaaaaar!

Resolvi tirar os sapatos, pois o salto estava acabando com o meu pé. O Homem-aranha trocou de roupa e agora está de Flecha da Família Incrível pela casa quebrando tudo. Coloquei o dedo na cara dele e disse:

- Meu filho, se tu não parar, o flecha vai ser enjaulado com os leões da floresta e vai ficar lá dentro até um deles não existir mais, que tal? Eu voto no leão e você?

Nisso, lembrei que não havia jantado e constatei que só haviam míseros fios de ovos sobre o peru. Fui até à despensa, abri uma lata de figo e coloquei praticamente a lata inteira sobre o prato para compensar a falta dos lindos fiozinhos de ovos que haviam sumido. Provavelmente a tia “fortinha” achou que eram todos pra ela.

O cansaço e o sono começaram a bater. Fiquei tentando bolar uma forma de me atirar no sofá e fazer de conta que estava participando da conversa enquanto dormia de olhos abertos. Congelei um sorriso, me ajeitei numa almofada e pedi para Arlindo Orlando massagear meus pés enquanto todos estavam bebendo animadamente. Percebi que minhas piscadas estavam ficando compridas, alguém notou e levantou dizendo:

- Vamos amor! A dona da casa está cansada.

Acordei imediatamente e respondi:

- Que isso! Fiquem mais um pouco. Só estou com um pouquinho de sono. Tomei um Dramin sei lá, fiquei meio zonza. (Não iria dizer que foi um tarja preta né? Convenhamos!)

Infelizmente, eles decidiram ficar por mais duas horas e trinta e oito minutos aproximadamente. Já era madrugada alta e minha árvore de natal estava se mexendo. Na verdade só eu enxergava ela mexendo. Parecia meio torta, com algumas bolinhas no chão, quebradas. Deixa pra lá. Mas o que é aquilo no tapete? Um figo pisoteado? 

Decidi então tomar um ar para me manter acordada e se não desse certo teria que apelar para um palito nos olhos para mantê-los abertos. Abri a porta e o cachorro foi correndo para a sala. Que se dane! Ao olhar para a casa do cachorro pensei comigo mesma:

- Será que se eu deitar só um pouquinho dentro da casinha dele alguém vai notar?

Ai,ai... Nada como a noite de Natal. Na casa dos outros e não na minha.

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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