Diário de uma mãe em surto: o fundo do poço

Faz muito tempo que não escrevo em meu diário. Todos estão viajando. Foram para um campeonato de futebol numa cidade vizinha e ficarão por lá até amanhã de manhã. No quarto somente a luz que vem do poste da rua e se projeta na janela. Estou deitada na cama completamente deprimida sem conseguir me mexer.  Um silêncio ensurdecedor. Na parede em frente à cama um quadro completamente torto começa a me irritar. Mas é como se eu mesma estivesse presa dentro do meu corpo sem conseguir mover um músculo para chegar até lá e colocar no prumo.  São quase dez da noite e ainda não comi nada depois do café da manhã de ontem. Não sinto fome.  De repente, ouço um barulho estranho e consigo reagir a ponto de sentar na cama.  Meu coração dispara. Minha boca seca. Uma sobra no corredor se aproxima.

- Quem está aí? Pergunto

No mesmo instante uma espécie de voz interior me chamando de retardada diz que não é assim que se reage a uma sombra na casa escura. A adrenalina percorre meu corpo e não consigo mover um músculo. A sombra se aproxima e diz:

- Sou seu subconsciente faminto, prazer meu nome é Fome Farias Fortes.

Com os olhos completamente arregalados, me encolho na cama e digo:

- Como assim? Isso não pode estar acontecendo! Saia daqui!

- Você bem que podia me servir pelo menos um copo d´água não é mesmo? A senha do wi fi e um copo de água não se nega a ninguém.

- Se isso for uma piada, não tem a menor graça. Vá embora daqui!

- Escute, não tenho tempo para ficar discutindo. Que tal um hambúrguer com batata frita?

- Não pode ser! Isso não pode estar acontecendo... Você não é real!

- Como não? Não estou aqui bem na sua frente falando em hambúrguer e batatas fritas... Aliás, podíamos pedir um sorvete de sobremesa, com cobertura dupla de chocolate! Que tal?

- Não sinto a menor vontade de comer, pare com isso. O máximo que posso te oferecer é chá com bolachinha.

- Chá com bolachinha? Fala sério! Se fosse o Brad Pitt que estivesse bem aqui na tua frente iria oferecer chá com bolachinha para ele?

- Mas você não é o Brad Pitt e quero que vá embora.

- Por quê? Você estava aí deitada parecendo uma múmia paralítica olhando para o teto sem absolutamente nada de interessante para fazer e eu estou aqui te convidando para sair e comer hambúrguer com batata frita que é muito mais interessante. 

Levanto com muita determinação, num ímpeto de me livrar daquela sombra falante e esfomeada, acendo a luz e percebo que simplesmente ela desapareceu. E o sorriso do gato de Alice se instala em meu rosto quando percebo que ainda mando nesta casa.  Hora de reagir Dona Ana.  E rápido!

 

Renata Miranda
Administradora de Empresas com MBA em Gestão de Pessoas
Master Head Trainer Coach
Escritora e Palestrante
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